Semana de aniversário é sempre cheia de surpresas né? Um monte de bolo para compartilhar, velas para assoprar, balões para estourar… e uma seção novinha para abrilhantar ainda mais o Essência!

É com muito prazer que apresento à vocês o Com açúcar com afeto! (Fiz seu doce predileto… ah Chico!)

Essa seção trará todo mês uma semana dedicada aos confeiteiros desse nosso Brasil – e por que não do mundo – contando um pouquinho sobre quem são, o que fazem, qual a especialidade com que trabalham e como venceram barreiras para seguirem felizes em suas carreiras!

Tem muito nome bom na fila de postagem já e muitos outros, ansiosamente, prontos para serem entrevistados e devidamente fotografados!

Mas essa semana, para aquecer os tambores, o Com Açúcar, com afeto é sobre essa que vos fala, Joyce Galvão, entrevistada com carinho por uma amiga muito querida!

Bem vindos, sirva-se de um pedaço de bolo e boa leitura!

 

Oi Joy! Tudo bem? Primeiro conta um pouquinho sobre você, de onde veio, para onde foi… e como acabou pousando na confeitaria!

Oi Ca! Bom, eu tenho 32 anos (ai meu Deus, já cheguei na idade de não revelar mais meus aninhos!) nasci em São Paulo e … O que mais? Que difícil falar de nós mesmos… cruzes!

Eu não sou daquelas com histórias super romantizadas de subir em um banquinho para confeitar bolos ou enrolar brigadeiros, que tinha pé de seriguela no quintal e já comia formiga no meio do arroz.  Na verdade, não lembro muito disso… Mas lembro dos bolos que minha mãe fazia quando eu era pequena – o de brigadeiro e coco gelado eram os melhores! – dos bolos que eu sempre comia nas minhas férias no Rio de Janeiro – o bolo mármore, quentinho, pós banho de piscina, e o de banana caramelada da Eunice! Ai ai…

Lembro em especial de um bolo de fubá que minha madrinha uma vez enviou para casa, em uma forma retangular de alumínio (que nunca mais retornou para ela). Eu fiquei alucinada com aquele bolo e juntei isso com os que eu comia no Rio de Janeiro, na casa da minha família. Foi ai que eu, que só sabia fazer bolos pelo que via na televisão, comecei a fazer aquelas massas pré-prontas, de caixinha. Mas não pense que eu batia tudo no liquidificador não! Eu batia a manteiga com a gema, deixava cremosinha…. Depois juntava a massa alternada com o leite e por fim claras em neve! Ficava um arrassssooo!!!! E eu nem sabia porque fazia tanta firula! 🙂

Foi isso que te levou a mergulhar na confeitaria?

Na verdade não… sei. Não lembro se foi isso.

Eu queria ser médica. Estudei a vida toda para isso. Mas eu sempre assistia Ofélia com meu irmão quando voltávamos da escola…  A gente ficava babando nos franguinhos suculentos que ela fazia. Não lembro de bolos, só comida mesmo.

Depois, com 17-18 anos trabalhei de garçonete e bartender em um restaurante – na época que estudava para ser médica, prestando ENEM e mil e uma provas ‘chatérrimas’. Mas eu sempre dizia que depois de formada, já clinicando, eu iria fazer cursinhos de cozinha para cozinhar para os amigos.

Um dia me deu um estalo e quis levar o hobby para a profissão. Conversei com meus pais, que relutaram um pouco, mas no fim apoiaram.

Hoje, imagino o quanto foi difícil para eles essa minha decisão. Na época curso no Brasil quase não tinha, Gastronomia era uma coisa tão… de porão. Imagine sua filha, com as possibilidades de usar um jaleco branco com o nome Dra. estampado mudar isso para um avental sujo de gordura?

Difícil…

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ensaio All about cakes com Sharon Eve

Então você começou na cozinha?

Isso. Logo que entrei na faculdade fui estagiar.

Trabalhei, ou melhor, pipoquei em vários trabalhos. Dei aula de inglês, fui recepcionista e um dia consegui cair na cozinha de um hotel com o melhor chef que tive na minha vida, o Frasson.

Nesse meu primeiro estágio eu fiz de tudo. De garde manger à confeitaria. Eu chegava cedo e ia para o garde manger limpar peixe e montar sanduíches de coffee break. Subia para a confeitaria e na hora do trabalho eu ia correndo para a cozinha fazer meus deveres.

Algumas vezes quando tudo estava meio parado – porque cozinha de hotel só atende room service, dificilmente tínhamos um salão cheio – eu atravessava o hotel pelos labirintos das tubulações e caia no restaurante japonês para aprender mais. Todos os cozinheiros daquele lugar me conheciam, me respeitavam e se animavam com minha empolgação em aprender.

Nas sextas e sábados ficava até mais tarde para participar dos casamentos! Depois passei para outras cozinhas, restaurantes, caterings… Tive mil e uma experiências enriquecedoras (mesmo que algumas extremamente tristes). Posso escrever um livro com tanta coisa!

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ensaio Frankie e Marília exclusivo para o Essência

Mas em qual momento você entrou na confeitaria?

Ah eu não sei dizer. Eu sempre tive meu pesinho no mundo dos doces, mas os chefes com quem trabalhei sempre me empurravam para a cozinha quente. Eu era animada, ágil, gostava daquela euforia da cozinha. Gosto, sinto muita falta. E por mais que eu insistisse em querer ir para a confeitaria nunca me deixavam.

Um dia uma ex-professora estava abrindo uma confeitaria e me chamou para trabalhar com ela. Nem pensei duas vezes e fui! Finalmente ia poder mergulhar em um balde de chocolate e em quilos de farinha!

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A Confeitaria, Bem Simples

E como foi esse trabalho?

Foi uma delícia… Eu adorava! Mas era muito nova e ainda estava buscando meu caminho. No meio do processo eu resolvi fazer engenharia de alimentos e acabei tendo que deixar a confeitaria – no meio da Páscoa. O que fez minhas chefs me odiarem um pouquinho.

Engenharia? Você estava desistindo da cozinha?

Não! A cozinha está enraizada em mim. Por mais que eu tivesse tido desilusões sérias em relação à ela, eu nunca consegui largar a profissão. Sempre surgia algo no caminho que me puxava de volta como se mostrando: “Ei, aqui é seu lugar. Vai embora não!”

Desde que eu comecei a estudar gastronomia eu era muito curiosa. Queria saber o porquê das coisas e nenhum professor me dava a resposta completa, do jeito que eu gostaria. Foi quando o Ferran Adriá despontou na mídia e eu fui atrás para trabalhar com ele.

Em 3 anos enviando currículo, nunca recebi nem sim, nem não. Então resolvi me ajeitar por aqui, estudar com o que dava e fui fazer engenharia.

Mas você acabou conseguindo esse trabalho não é verdade?

Sim! Quando entrei na faculdade de Engenharia ainda mandei currículo por mais 2 anos. Foram 5 anos de envios sem resposta! Ai, no meu terceiro ano de Engenharia eu desisti. Ia largar a Gastronomia, me enfiar em uma empresa e usar roupa de executiva. Foi quando a cozinha me puxou de novo: recebi um email me chamando para trabalhar na Fundació Alícia, que estava sendo inaugurada no ano seguinte e eu seria a primeira estagiaria deles!

Chorei, pulei, desacreditei. Tranquei matricula, comprei passagem e fui com uma mão na frente e outra atrás. E foi incrível! A melhor experiência da minha vida.

E como foi essa experiência?

Incrível! Inesquecível! Marcou toda minha carreira e o jeito que penso hoje. Sou muito grata por ter lapidado minha profissão com tantas pessoas maravilhosas que passaram pelo meu caminho.

Eu entrei em contato com chefes que achava que jamais veria na minha frente. Provei ingredientes super exclusivos, tive experiências arrebatadoras. E tentei aproveitar o máximo dos máximos tudo que surgia para mim.

Mas você trabalhou com confeitaria ou cozinha lá?

Os dois. Na verdade no laboratório eu estudei de tudo… sem muitos rótulos. Era uma pesquisa mais de ingredientes, resultados e soluções. Visitava de restaurantes a chocolaterias. Mas finalizei a viagem na confeitaria do melhor restaurante do mundo, o El Celler de Can Roca. E ai, finalmente, eu enfiei o pé no açúcar e não arredei mais!

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Jordi Roca e eu gordinha, em 2009

E seu retorno para o Brasil, como foi?

Bom, foi triste. Eu tive oportunidades de continuar lá… trabalhar como chef em restaurantes muito bons! Mas eu quis voltar para terminar minha faculdade. Eu achava que seria importante, e além do mais não consigo deixar coisas pela metade, preciso fechar os ciclos. A ideia era terminar a faculdade e voltar para trabalhar na Espanha.

Mas…

Mas eu casei, e ai não queria deixar meu marido aqui para trabalhar em outro país. Acabei montando a All about cakes e muitas outras coisas foram surgindo com ela; teve o programa no Bem Simples, parcerias, aulas, enfim… Muita coisa foi me prendendo aqui.

E por que o Essência?

Ah, o Essência surgiu a muitos anos atrás, na época que eu tinha blog em 2002, acho. Ele foi simplesmente uma evolução de todos os blogs que eu tive. Era algo planejado para bem antes da All about cakes, mas não achei que no momento era possível levar as duas coisas com qualidade, e acabei optando pela confeitaria. O que foi lindo! Aprendi muito e conheci pessoas incríveis, clientes sensacionais, fornecedores que me ensinaram muita coisa boa!

O Essência nunca saiu da minha cabeça. E ai um dia eu li uma besteira tão grande em um site de receitas – até que famoso – e vi alunos replicando aquela informação; foi quando eu falei: chega! O conteúdo na internet está muito bagunçado e mal escrito, é preciso ter qualidade para que alunos possam pesquisar sem que seus professores arranquem os cabelos!

E ai, pufff, nasceu!

E o que o Essência representa para você?

Ele é ainda um bebê, mas representa tudo que eu sou. É a minha essência que vai aparecer aos pouquinhos no conteúdo do site e com tempo o público vai identificar.

Dos textos, fotos, pesquisas, receitas, tudo me representa. Meus gostos, meus 14 anos de profissão, de busca, de desejos.

Ainda tem muita coisa para rolar, e ele vai crescer muito! Espero poder colaborar com a cultura e o conhecimento da confeitaria, profissional, caseira, o que for! Desejo que ele represente a confeitaria no Brasil, e ajude àqueles que estão iniciando na carreira a encontrar uma direção, o conhecimento necessário e que acenda nos profissionais um animo a mais para pesquisarem mais profundamente sobre confeitaria.

Acho que terminamos por aqui!  Desejo todo sucesso para você e para seus projetos. E ouso dizer que você é uma pessoa incrível, uma guerreira e que merece muita felicidade, prosperidade e sonhos realizados!

Obrigada Ca! Por fazer a entrevista, e por me deixar falar que nem uma tagarela! Hahahaaha Beijos e sucesso para todos nós!

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6 Comments

  1. Luiza Jabour

    Boa noite Joyce, tudo bem?? Descobri seu site por acaso e NOSSA! Estou apaixonada!!!! Com vontade de ir agora pra cozinha testar todas as receitas!!!! Uma mais tentadora que a outra, parabéns!!!! Gostei muito da sua história e queria te fazer uma pergunta. Eu me formei em gastronomia e hoje em dia trabalho na confeitaria dos meus pais, em Brasília. Já até fiz um estágio no Maní, mas como meus pais já tem uma confeitaria eu não trabalhar em outros lugares por muito tempo. Enfim, eu quero fazer um curso fora mas estou em dúvida em relação as escolas. Voce teria alguma para me indicar? Estou entre a Lenôtre e a CIA, mas estou aberta a outras opções!!!!
    Ficarei muito feliz com a sua ajuda!!!
    Um beijo e sucesso!

    Luiza Jabour

    Reply
    1. Joyce Galvão (Post author)

      Luiza, fico feliz que tenha encontrado o Essência! E gostado! Obrigada!!!!
      Acho super válido você buscar novas experiências mesmo com uma confeitaria já montada!
      A Lenôtre é uma escola super tradicional e muito procurada por confeiteiros – mas acho que a maioria dos ingredientes utilizados estão muito longe da realidade do Brasil. Gosto de fazer cursos curtos por lá, para aperfeiçoar pontos que acho necessário. A CIA é um sonho! Mas eu prefiro a The French Pastry School – em Chicago. Tem uma colega inclusive voltando de lá super feliz com o curso de 6 meses!
      Além disso também tem a Espai Sucre em Barcelona, que é mais contemporânea e exercita bem a criatividade.

      Quando decidir volta pra me contar?
      beijo grande e sucesso para nós todos!!!

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      1. Luiza Jabour

        Boa noite Joyce,

        Muito obrigada pela sua resposta e atenção! Realmente já ouvi falar sobre o problema da diferença de ingredientes entre a França e aqui. 🙁
        O único ruim da CIA é que o curso dura 23 meses, muito tempo ne? A minha mãe sempre me fala da The French Pastry School, vou dar uma pesquisada nela e na Espai Sucre. Muito obrigada pelas dicas. Outra dúvida, o que você acha da ALMA na Italia? Pra um curso de cozinha + confeitaria?

        Quando decidir volto com certeza. Ou melhor, vou voltar todos os dias pra testar cada dia uma receita!!! Amanha é aniversário do meu sobrinho e vou fazer aquele bolo de banana com nutella, parece divino!!

        Beijos
        Luiza

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        1. Joyce Galvão (Post author)

          23 meses é realmente para quem pode tirar dois anos sabáticos para se descobrir! rs
          A ALMA, na Itália é muito bacana… mas é bem específica no quesito confeitaria… acho interessante para agregar, não para aperfeiçoar.

          Volta sim! Quem sabe você não faz um texto para compartilhar sua experiência aqui pro Essência?! Ia ajudar outras pessoas também!!!

          beijos e qualquer ajuda que eu possa dar, estou por aqui!

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  2. Luiza Buscariolli

    Eu já tinha lido uma coisa ou outra sobre você, mas depois de ler seus textos no ickfd eu passei a te admirar muito e estou devorando o essência! Achei bem engraçado que eu também estudei a vida inteira para fazer medicina e quando passei na UFRJ desisti e fui fazer gastronomia! Acho que a família toda quis me matar! Mas hoje sou muito feliz! Parabéns pelo seu trabalho!

    Reply
    1. Joyce Galvão (Post author)

      Oi Luiza!
      Essas escolhas parecem muito mais fáceis quando guiadas pelo coração né?
      Obrigada por acompanhar o Essência e pela mensagem, fiquei muito feliz!Desejo muito sucesso e prosperidade à você!
      beijos

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