Eu nunca vi um pé de cerejas cor de neon, ou que fosse branco, ou transparente, ou qualquer cor que produzisse cerejas como as da cor da maraschino. Pensar nisso me afasta cada vez mais da crença de que cerejas ao maraschino são cerejas de verdade!

Se você olhar o rótulo de uma lata de cereja ao maraschino vai se impressionar ao descobrir que elas na verdade, são feitas de cereja! Sim! Essa história de chuchu e mamão verde é lenda, e pior, pura preguiça de pegar uma lata na mão, virar um pouquinho e gastar uns segundinhos descobrindo toda a verdade. Mas não sei, será que… Será que, talvez  – só supondo! – realmente existam marcas que tenham um trabalho tremendo para transformar um chuchu em um monte de bolinhas… Seeeeerá?

Claro que cerejas ao maraschino são cerejas. Mas entendo que, aceitar o fato de que uma cereja neon, sem sabor de cereja, com gosto de xarope de dor de garganta é cereja, deve ser difícil até para quem produz! Acho que na verdade, nem sei se podemos dizer que se trata de uma fruta após tanto processamento, a ponto de deixá-las transparentes e impregnadas com corante vermelho e aroma artificial de maraschino. Elas simplesmente perderam a essência, suas almas foram removidas e transformadas em um produto artificial. Triste…

O processo de produção começa com cerejas do tipo Royal Ann ou Rainier. As cerejas sem caroço são colocadas em uma espécie de salmoura de dióxido de enxofre e cloreto de cálcio, destinado a preservar as cerejas, manter sua textura firme e torna-las amareladas! Logo em seguida, as cerejas são colocadas em óleo de amêndoas, xarope de milho (glicose) misturado com corante vermelho 40, açúcar, aroma artificial de maraschino e ácido cítrico para conservação. E zás: as cerejas estão prontas!

Na verdade nem sempre o processo foi tão sintético… originalmente as cerejas frescas eram preservadas em licor maraschino, uma bebida, assim como o kirsch, feita de cerejas destiladas. Essas cerejas embebidas eram de consumo exclusivo da realeza, e somente durante a lei seca americana na década de 20 é que o álcool foi removido e substituído por todo esse processo.

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Mas a proibição foi a muito tempo atrás e tudo já voltou a ser permitido como antes… mas então, por que esse tipo de cereja ainda é vendido?

Primeiro porque as pessoas compram, segundo porque acredita-se que ninguém consome mesmo esse tipo de produto, que é utilizado apenas para decoração – a famosa cereja do bolo envolvida em fios de ovos bem amarelos…. (De onde surgiu isso? Preciso pesquisar….). E terceiro, bem… Tem gente que gosta! Sério… Eu mesma conheço pelo menos duas pessoas! E sei que existem muitas outras espalhadas pelo mundo! Mas desde que a Lei Seca terminou, em 1933, a FDA revisou a política sobre as cerejas enlatadas, e em 1940, a cereja ao maraschino passou a ser definida como “cerejas coloridas artificialmente de vermelho, impregnadas de açúcar, e embaladas com xarope de açúcar, aromatizada com óleo de amêndoas ou similar”.

Mas a boa notícia é que você pode fazer a sua própria cereja ao maraschino em casa, cobrindo uma quantidade desejada de cerejas com um bom licor maraschino, ou comprar aquela, que antes era reservada só aos ricos, vindas diretamente da Itália!!!

As cerejas ao maraschino diferem das griottines francesas pelo tipo de álcool utilizado – uma utiliza o licor maraschino e a outra o kirsch; que por sua vez diferem das amarenas, que são cerejas pretas, bem ácidas, típicas da Itália, da região de Bologna e Modena, maceradas em xarope. A Amarena é uma variedade da Prunus cerasus (cereja ácida), desenvolvida por Gennaro Fabbri, que nasceu em 1869 em Bologna e começou a comercializar as cerejas em 1905 pela marca Fabbri. Sua fábrica continua ativa até os dias de hoje e você encontra as amarenas facilmente  – em São Paulo –  em casas especializadas em material para confeitaria e no supermercado Santa Luzia.

Mas e a história do chuchu? Pois bem… É verdade, sinto dizer!

Embora as cerejas ao maraschino existam e sejam realmente feitas de cereja, a variedade xinfrim de chuchu existe, e muitas padarias recorrem à imitação para driblar o alto custo do produto original.

A cereja de chuchu não é vendida como uma cereja – para descobrir se você não está levando chuchu por cereja, você precisa ter o costume de ler rótulos e verificar os ingredientes. Se mesmo assim você duvidar, verifique a presença de cabos ou sementes, e se ainda assim nada se confirmar, procure pela dobrinha sexy da cereja. Garanto que nenhuma máquina de fazer bolinhas de chuchu é tão capacitada assim!

Caso você queira fazer sua própria ‘chuchureja’, basta branquear o chuchu, fazer as bolinhas com um boleador, ferve-las por 3 horas em cal virgem e então despeja-las em calda de groselha e licor maraschino! E pronto, você tem a sua própria imitação feita em casa!!!

 

Referências

Blech, Zushe Yosef. Kosher Food Production. [S.l.]: John Wiley and Sons, 2009. 266 pp

FDA. Maraschino Cherries. Disponível em: < http://www.fda.gov/ICECI/ComplianceManuals/CompliancePolicyGuidanceManual/ucm074535.htm> Acesso em: 12 de dezembro de 2014.

ENSMINGER, M.E. Foods & Nutrition Encyclopedia. CRC Press; 2. ed., 1993.

HENNEY, E.N., FILZ, W.F. Home Preparation of Maraschino Cherries. Oregon State University. Agricultural Experiment Station, 1951

VIEIRA, Vanessa. Cereja em calda é feita de chuchu? Disponível em: < http://super.abril.com.br/alimentacao/cereja-calda-feita-chuchu-632108.shtml> Acesso em: 27 de dezembro de 2014.

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